Ontem queimei um lençol,
com o ferro,
fiz isso sozinha,
gravei-lhe um colorido triângulo torrado
graças à televisão.
Tenho sempre a televisão pequena na cozinha
enquanto passo a ferro:
uma criança negra numa guerra
mamava ao peito de sua mãe morta.
Senti que tinha engolido uma bola de pêlo.
Não irei esquecer isso:
o leite gotejou para dentro do meu peito.
Miren Agur Meabe
Illustration on the Festival of Fools and CQAF for Quarter Beat Magazine’s May Issue, out in Belfast now…
Tá tão frio aqui
o sol mal aqueceu minha pele
quem dirá meu coração
eu preciso de calor humano
de carne
afeto
trocar olhares
palavras loucas
loucuras boas
de proibições desobedecidas
preciso de um pouco de vida
um gole
uma tragada
um beijo
que seja
preciso me sentir vivo
corpos vivos são quentes.
Os deuses, noutros tempos, eram nossos
Porque entre nós amavam. Afrodite
Ao pastor se entregava sob os ramos
Que os ciúmes de Hefesto iludiam.
Da plumagem do cisne as mãos de Leda,
O seu peito mortal, o seu regaço,
A semente de Zeus, dóceis, colhiam.
Entre o céu e a terra, presidindo
Aos amores de humanos e divinos,
O sorriso de Apolo refulgia.
Quando castos os deuses se tornaram.
O grande Pã morreu, e órfãos dele,
Os homens não souberam e pecaram.
- José Saramago, em Os Poemas Possíveis.
Eu tive um sonho.
Um desses sonhos que nos faz repensar a vida,
Não sei se já aconteceu contigo,
Mas mesmo assim, eu sonhei.
E nele,
Eu ia pra guerra,
Com minha farda e meu quepe,
Meu coturno e minha honra.
E no canto do olho,
Lá estava Ernest,
Mastigando seu palito de dente,
Reclamando da vida.
Eu podia jurar que seus dedos estavam em posição de combate:
Parados no ar,
Batendo na máquina.
Ao seu lado encontrava-se Jerome.
Seu grande fã.
E seus olhos brilhavam,
Vidrados no ídolo.
Era jovem,
E belo.
Diante de mim,
Seu rosto metamorfoseou-se:
Havia um Holden escondido em cada traço seu.
Uma voz-quase-choro fez-me virar
E vi Bob,
Tocando um folk,
Observando tudo de sua torre de vigia,
Preso a suas correntes da liberdade.
Elvis também apareceu pra festa,
Mas não se arriscou a fazer um twist,
Não tinha mais o mesmo molejo,
A tristeza e os horrores da guerra haviam acabado com ele.
E Francis lembrou-me Jay,
Com a luz verde nos olhos.
Embora com um toque de Nick,
Ajeitasse as calças e arrumasse os cabelos,
Beijasse sua Zelda
E a tomasse para dançar uma valsa.
Janis, querida, você não mudou nada.
Sua voz rouca exige um blues agora mesmo,
Quem sabe Jimi não possa nos ajudar,
Nos dar uma mãozinha?
E Pablo,
O Picasso,
Cubismado pelos anos de luta
Pintava alto,
Pintava baixo,
Aqui e ali,
Com Pablo,
O Neruda.
Pedi-lhe uma poesia,
Não adianta furtar Vinicius ou Carlos.
E foi o fim do sonho,
Quando Robert pisou na mina."- O sonho.
Como deve ser só a rotina
Do homem que aceita o homem,
Do homem que aceita o mundo,
Do homem que aceita a si mesmo…
Como devem ser terríveis os dias
Do homem que aceita a vida,
Do homem que aceita a mulher,
Do homem que aceita o amor…
Como deve ser sofrida a cabeça
Do homem que aceita a política,
Do homem que aceita o governo,
Do homem que aceita o Estado…
E o que acontece com
O homem que enxerga o futuro?,
O homem que se volta ao passado?,
O homem que perdoa aos outros?
(Como devem ser felizes suas lágrimas)







