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Malcolm Liepke

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Malcolm Liepke

"Eu não tinha este rosto de hoje,
assim calmo, assim triste, assim magro,
nem estes olhos tão vazios, nem o lábio amargo.
Eu não tinha estas mãos sem força,
tão paradas e frias e mortas;
eu não tinha este coração que nem se mostra.
Eu não dei por esta mudança,
tão simples, tão certa, tão fácil:
Em que espelho ficou perdida a minha face?"
- Cecília Meireles.
breves notas (1)

Ontem queimei um lençol,
com o ferro,
fiz isso sozinha,
gravei-lhe um colorido triângulo torrado
graças à televisão.
Tenho sempre a televisão pequena na cozinha
enquanto passo a ferro:
uma criança negra numa guerra
mamava ao peito de sua mãe morta.
Senti que tinha engolido uma bola de pêlo.
Não irei esquecer isso:
o leite gotejou para dentro do meu peito.

Miren Agur Meabe 

400facts:

Illustration on the Festival of Fools and CQAF for Quarter Beat Magazine’s May Issue, out in Belfast now…

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Illustration on the Festival of Fools and CQAF for Quarter Beat Magazine’s May Issue, out in Belfast now…

Tá tão frio aqui

o sol mal aqueceu minha pele

quem dirá meu coração

eu preciso de calor humano

de carne

afeto

trocar olhares

palavras loucas

loucuras boas

de proibições desobedecidas 

preciso de um pouco de vida

um gole 

uma tragada 

um beijo 

que seja

preciso me sentir vivo

corpos vivos são quentes.

Mitologia

Os deuses, noutros tempos, eram nossos

Porque entre nós amavam. Afrodite

Ao pastor se entregava sob os ramos

Que os ciúmes de Hefesto iludiam.

Da plumagem do cisne as mãos de Leda,

O seu peito mortal, o seu regaço,

A semente de Zeus, dóceis, colhiam.

Entre o céu e a terra, presidindo

Aos amores de humanos e divinos, 

O sorriso de Apolo refulgia.

Quando castos os deuses se tornaram.

O grande Pã morreu, e órfãos dele,

Os homens não souberam e pecaram.

- José Saramago, em Os Poemas Possíveis.

"Ontem à noite,
Eu tive um sonho.
Um desses sonhos que nos faz repensar a vida,
Não sei se já aconteceu contigo,
Mas mesmo assim, eu sonhei.
E nele,
Eu ia pra guerra,
Com minha farda e meu quepe,
Meu coturno e minha honra.
E no canto do olho,
Lá estava Ernest,
Mastigando seu palito de dente,
Reclamando da vida.
Eu podia jurar que seus dedos estavam em posição de combate:
Parados no ar,
Batendo na máquina.
Ao seu lado encontrava-se Jerome.
Seu grande fã.
E seus olhos brilhavam,
Vidrados no ídolo.
Era jovem,
E belo.
Diante de mim,
Seu rosto metamorfoseou-se:
Havia um Holden escondido em cada traço seu.
Uma voz-quase-choro fez-me virar
E vi Bob,
Tocando um folk,
Observando tudo de sua torre de vigia,
Preso a suas correntes da liberdade.
Elvis também apareceu pra festa,
Mas não se arriscou a fazer um twist,
Não tinha mais o mesmo molejo,
A tristeza e os horrores da guerra haviam acabado com ele.
E Francis lembrou-me Jay,
Com a luz verde nos olhos.
Embora com um toque de Nick,
Ajeitasse as calças e arrumasse os cabelos,
Beijasse sua Zelda
E a tomasse para dançar uma valsa.
Janis, querida, você não mudou nada.
Sua voz rouca exige um blues agora mesmo,
Quem sabe Jimi não possa nos ajudar,
Nos dar uma mãozinha?
E Pablo,
O Picasso,
Cubismado pelos anos de luta
Pintava alto,
Pintava baixo,
Aqui e ali,
Com Pablo,
O Neruda.
Pedi-lhe uma poesia,
Não adianta furtar Vinicius ou Carlos.
E foi o fim do sonho,
Quando Robert pisou na mina."
- O sonho.
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